Jornal O Estado do Triângulo - Sacramento
Edição nº 1439 - 07 Novembro 2014

Paulo Henrique João - Final da entrevista: O rei do abacate

Edição nº 1392 - 13 Dezembro 2013

ET - Em números, qual é a produção e o consumo de abacate no Brasil? 

Paulo Henrique - A produção está baixa, mas já houve investimentos em plantio, inclusive desse próprio grupo mineiro. O Brasil, segundo dados do Sebrae, possui 11 mil hectares de abacate, enquanto  no México são 110 mil hectares. Nós vamos dobrar a capacidade e a intenção da associação é justamente não deixar desequilibrar o setor, porque o Brasil consome, segundo estudos de universidades, 300 gramas per capita da fruta, enquanto o México consome 8 kg; Estados Unidos, 2 kg per capita. O consumo brasileiro da fruta é muito baixo. Conclusão: além do baixo consumo, a cultura aqui no Brasil está pouco explorada e temos condições de aumentar isso e chegarmos ao mercado lá fora. O México, que é o maior fornecedor de abacate para os Estados Unidos,  já sinalizou que não vai conseguir abastecer os Estados Unidos e é aí que o Brasil poderá entrar no mercado e aí reside   a força da Associação. Se nos organizarmos poderemos potencializar a produção. 

 

ET - Quando você fala em baixo consumo de abacate no Brasil, você atribui isso a falta de conhecimento, por exemplo, do valor nutricional da fruta?

Paulo  Henrique - É a falta de cultura de consumo. No Brasil, durante muitos anos, o abacate  era considerado um vilão nas mesas,  por se achar que a gordura presente no abacate fizesse mal a saúde. O conhecimento popular se embasava em que qualquer tipo de gordura era maléfica.  As pessoas costumam ter uma imagem negativa do abacate: “O abacate é muito gorduroso, vai piorar seu colesterol”, dizem uns; “Abacate engorda“, falam outros.  Hoje, todas as pesquisas dos últimos cinco anos, apresentam o abacate como o 'bom moço'. Temos acompanhado a evolução das pesquisas. Com a  divulgação da importância da alimentação equilibrada, novos conceitos surgiram e dentre eles a evidência desse fruto que têm inúmeros benefícios à saúde, antes não valorizados.

 

ET – E hoje...

Paulo Henrique - É um alimento que não deve faltar na alimentação dos atletas, pelos altos teores de polifenóis, potássio e outros nutrientes valiosos, além disso estudos apontam  que o abacate é excelente para o controle do  colesterol.  Nossa intenção com a Associação é em parceria com as universidades, divulgar estas pesquisas e implementar o abacate na culinária nacional, publicando  receitas. No Brasil, ele ainda é visto somente como abacate, leite e açúcar e não é bem assim. Abacate tem várias aplicações: saladas, bolos, mousse, sorvetes, então temos que colocar essas opções à disposição do consumidor. 

 

ET - A chegada da cana em Jardinópolis aconteceu na crise do abacate. Não seria ela, na verdade, a causa dessa crise naquela região? 

Paulo Henrique - A cana, na verdade, funciona como regulador de culturas em crise. Toda cultura que se encontra em alguma dificuldade e que está próxima de áreas de cana, ela automaticamente ocupa o espaço por causa da viabilidade econômica. Para o produtor é mais fácil arrendar as terras para a cana que manter a produção. E foi exatamente isso que aconteceu na nossa região. E como sabíamos que crise é crise,  arrendamos também as terras em Jardinópolis e investimos em terras aqui. Na época,  era economicamente inviável investir no abacate. Por que? Porque leva-se no mínimo cinco anos para formar uma lavoura em produção, enquanto a cana, batata, milho e soja produzem em três, quatro meses.

 

ET - Falando em 'economicamente viável', por que vale a pena investir no abacate?  Qual a vida útil de um abacateiro e sua rentabilidade por planta?

Paulo Henrique - Uma planta adulta, em produção rende mais ou menos R$ 250,00. E o abacate não é uma planta que exige altos investimentos, porém ele deve ser cativo. Temos que plantar e cuidar. Os tratos culturais começam a partir da formação, e, proporcionalmente falando, aumentam quando a planta cresce, quando aumenta seu volume de  nutrição, da parte fitosanitária, por isso o  investimento tem de ser constante. Apesar disso, temos a dizer que a fruticultura é muito viável, porque o consumo aumentou muito, o retorno é garantido e o mercado está muito equilibrado, ou seja, a produção abastece o mercado, sem haver excedente. Toda fruticultura hoje é viável, citrus, manga, maracujá, abacaxi. Isto é, o que se produzir de fruticultura há mercado, por isso o nosso investimento em outras frutas. 

 

ET - A vida útil de um pé de abacate...

Paulo Henrique - Um abacateiro bem cuidado, bem conduzido vive no mínimo 30 anos e pode chegar até 40. Sobre a produção por hectare, podemos considerar o seguinte: plantando 100 pés de abacates por hectare, como um abacate pesa entre 650 a 800 gramas, teremos uma média de produção por planta em torno de 250 quilos, totalizando uma média de 20 toneladas por hectare. Só que este ano, temos talhões que vão fechar com 50 toneladas.  

 

ET - Fazendo as contas, quanto rende por hectare?

Paulo Henrique - Considerando a média de preço a R$ 1,00 por quilo, teremos no final da colheita, cada hectare plantado rendendo R$ 20 mil. Mas o preço atual do abacate está saindo da fazenda entre R$ 3,00 a R$ 3,50 o quilo, o que hoje está triplicando essa renda. Isso mostra que fruticultura é viável.  Entretanto, vemos que no Brasil, infelizmente não há políticas agrícolas voltadas para a fruticultura. Alguns setores, como o de citrus, têm tentado se organizar nesse sentido, mas não chegam a lugar nenhum e as indústrias fazem o que querem. 


ET - Quando a cana chegou ao município foi uma polêmica muito grande em relação à degradação ambiental do solo, da poluição na queima, à mão de obra escrava... Nesse aspecto ambiental, como é com o abacate?

Paulo Henrique - Eu acompanhei todo o debate daqui e de outras cidades vizinhas. Isso não ocorre com o abacate, pelo contrário. Ele vira um reflorestamento, é uma floresta, as folhas viram matéria orgânica - os frutos, não, porque se caírem é prejuízo. O abacate é uma cultura sequeira, necessita de solo argiloso e profundo, - cascalho ou laje inviabilizam a cultura. Além disso, fazemos o manejo integrado. A parte da fazenda que não é utilizada em fruticultura, é utilizada em pecuária. O gado vai para o confinamento para gerar esterco para as lavouras de frutas. Assim, utilizamos todas as áreas da propriedade, exceto as áreas de reserva ambiental, que são muito bem preservadas. 


ET – Percebemos o seu grande conhecimento em plantio, manejo, recursos humanos e comércio. O Paulo Henrique é agrônomo, economista... Qual sua formação acadêmica?

Paulo Henrique - Não tive tempo pra estudar, não (risos). Minha escola foi a vida. Nasci nesse ambiente de cultivo de abacate. Tenho 40 anos e minha vida inteira foi isso. Eu era criança e já ajudava meu pai. Até cinco anos atrás produzíamos nossas mudas na própria fazenda, hoje, nós as compramos de Jacuí (MG). Mas, voltando a minha formação, eu aprendi tudo com a vida, com meu pai. A tradição da nossa família é a fruticultura.   Escola mesmo, foi só o fundamental, concluí a 8ª série. Parei e fui trabalhar pra valer. Aí não deu mais pra estudar, mas não fez falta até hoje, não (risos).


ET – Interessante seu nome, na verdade são três nomes próprios. O sobrenome é João? 

Paulo Henrique - Somos de descendência portuguesa. Meu pai, que faleceu em 2002, se chamava Pedro João. Meu bisavô chegou ao Brasil em 1912, trazendo o nome de família, João, que sempre foi preservado... 

 

ET – Agradecemos pela entrevista. E, conforme diz o significado de 'João', que “Deus continue sendo-lhe propício”.

Paulo Henrique João - Muito obrigado também a vocês.